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Home Colunistas Crônicas Tricolores, por M.M.Holtz! 2010: uma odisseia Tricolor

2010: uma odisseia Tricolor

Arrumei uma nova atividade profissional e, com isso, mais um perrengue lá em casa. A patroa anda dando pulos, porém é de raiva mesmo. Tá igual ao “Seu Madruga”, a única pessoa no mundo que ficava triste quando arrumava um empreguinho. Pois é, o problema é que esse meu novo posto é um voluntariado, feito por mim e alguns milhares de corações apaixonados e mentes idealistas. A verdade é que essa turma toda, além de colocar a mão na massa por pura bondade, de vez em sempre ainda tira uma graninha do bolso para investir nessa paixão. É compreensível o lado das rainhas de nossos lares, o orçamento familiar já não está lá grande coisa e os bobões, na visão delas, ainda perdem tempo com “caridade”. Pera lá! Não é bem assim. Tem um monte de ONG’s sérias preservando a natureza, atuando na defesa dos diretos do homossexual e no combate à pedofilia. Nós escolhemos salvar o Paraná Clube!

É meu primeiro dia de, digamos assim, “hobby” na Sede da Kennedy. Sabadão de manhã, um sol bonito e um friozinho gostoso às 10 horas na capital paranaense. A dona encrenca ficou em casa dormindo, mal humorada, braba e com olhar de indignação. Para amenizar o climão, eu dei um beijinho nela e, antes de partir, fiz aquela política. “Gata, eu vou lá e faço o que tenho para fazer, perto das duas horas eu tô de volta e, prometo, vamos fazer um programa bem legal de tarde, ok?”. Responde aí bonitão: o que é que a gente não faz para limpar a nossa barra?

Da porta da sede social do Paranazão eu aguardo os primeiros visitantes do recém reformulado “Museu da Paixão Paranista”. Estou ansioso, mas nervoso não porque trabalhar com amor dá segurança, estou blindado pelo colete tricolor. De repente um ônibus para ali na frente e eis que desce o guia da excursão. Eu não acredito no que tenho diante dos meus olhos. Vestido de um agasalho, típico de caminhada matinal, e um bonezinho do Sempre Torcedor, vem lá, todo faceiro: Aquilino Romani, o manda chuva do clube. O chefão lidera uma fila indiana puxada por uma cordinha, no maior estilo pré escolar. Com ele vêm o Somália, Gilson, Bocão, Diego Correia, Juninho, Murilo e lá no final da tripa está o Marcelo Toscano, com cara de perdido, usando uma camisa da seleção de Portugal. Até o João Paulo atrasou a ida ao Japão só para participar do passeio recreativo. Que fofinhos!

Senti uma coisa estranha e minha paz de espírito escafedeu-se como um pênalti mal batido. Coincidência né? Recebi os pestinhas e finalmente o “tour” pela história mais bonita que a humanidade já viveu começava, e eu não estou falando em Jesus de Nazaré. Já de início, e não podia ser diferente, um fato excêntrico: 1989, um guardanapo, um slogan, o planejamento de cores e símbolos, casados com algumas assinaturas maçônicas, fundavam a grande potência do futebol brasileiro. Veio a década de 90 e com ela o futuro duvidoso que a palma de nossas mãos infelizmente não nos mostrou. Projetado para ser o clube do ano 2000, oscilamos entre a glória e a desgraça, o choro do amor e o da dor.    

Atônitos os boleirinhos passaram por todos os vídeos, fotos, áudios e exposições emocionantes proporcionados pela nossa linha do tempo de 21 anos. Viram o gol espírita do João Antônio contra os Poodles, os cabeceios fulminantes do Tigre da Vila, as defesas milagrosas do Régis, as bombas do Ageu, a frieza do Renaldo (Toscano ficou vermelho nessa hora), a classe de Maurílio, a genialidade de Adoílson, o futebol moleque do Mirandinha e toda a categoria de Ricardinho, Lúcio Flávio, Caio Júnior e companhia. Heróis, mas, sobretudo homens que ergueram taças e mais taças sem olhares acovardados perante as dificuldades da época. Ao final da aula futebolística, misturada à triunfal trajetória de uma nação, chegava a hora da minha preleção.

Olhei para os “ilustres” visitantes, chamei a tia da limpeza para limpar o rastro de baba e vergonha deixada pelos coitados e disparei algumas palavras cobertas da mais dura sinceridade. Lembrei dos discursos carismáticos do filho da puta do Hitler e mandei bala. Naquele momento eu carregava as milhares de vozes do povo da Vila, manifestações sufocadas, reprimidas e deprimidas. Foi mais ou menos assim:

- Após esta aula é preciso pedir vergonha na cara? Repensem seus sonhos e seus anseios, tenham pés no chão. Aqui, o mundo da ilusão e os contos de fadas não têm vez. As conquistas são fruto de trabalho sério, luta e união de uma torcida sem igual. Abram os olhos e vejam a real dimensão da Mundial Vila Capanema, vocês estão longe de fazer parte do lado glorioso de nossa odisseia. Saiam daqui com essas caras de tonto, honrem o manto e suas calças masculinas, ao menos vençam o Náutico, daqui a pouco nos vemos em campo!

São 16 horas no Durival de Britto e Silva, o juiz apita e eu estou na curva norte cumprindo o que prometi à minha amada. Comprei umas pipocas, refrigerantes e, com ela, faço um belo programa de sábado à tarde. Para criticar é preciso estar presente, saia já do sofá e venha ser protagonista de nossa história.

 


Você pode entrar em contato com este cronista via MSN/e-mail: Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. . Vamos lá nação tricolor, mande suas críticas e sugestões de assuntos a serem “cronicados”!

Um grande abraço.

 

Última atualização (Sex, 30 de Julho de 2010 14:10)

 
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