O Manto sujo se lava em casa!
Eu não gosto de falar em trabalho quando estou na mesa de um boteco tomando aquela geladinha. É muito melhor comentar futebol, música e a vida dos outros. Quem não gosta de jogar uma conversinha fora? Sair do escritório, afrouxar a gravata, arregaçar as mangas da camisa amassada do batente, chamar o conhecido garçon pelo apelido e, sem cerimônia, esticar as pernas quase se deitando na cadeira. A gente ouve aquele barulhinho da garrafa sendo destampada e já sente o gosto da liberdade. Mas vez ou outra não é bem assim, sempre aparece um chato para falar do quanto ralou naquele dia, reclamar do salário injusto e do chefe mala. Assim o aguardado drink fica indigesto, pesado no estômago.
Chato, inconveniente, impertinente e mais qualquer outro sinônimo da expressão pé no saco. Eis que surge imponente na porta do bar, de peito estufado e sorriso largo, de quem está louco para contar uma vantagem ou se gabar de mais uma aventura vivida no Poder Judiciário de Curitiba, Maurício “Bacana”. O cara trabalha na vara da família do Fórum e quando a turma percebe sua chegada efusiva, fica aquele clima de sorriso amarelo e cochichos sem mexer os lábios para que o panacão não faça uma leitura labial antes de sentar-se à roda.
Cheio de clichês e gírias “maneiras” o imbecil já “chega chegando”, fazendo jus à fama relatada há pouco.
- E aí galera tudo numa nice? Nossa caras, cada rolo no trampo que vocês nem imaginam. Justiça da família é punk, só casos cabulosos.
Disse o nosso Forest Gump àqueles amigos que perderam o animo “misteriosamente”, na velocidade da luz.
Com aquela cara de pastel e pronto para simular uma repentina dor de estômago, fui pego de surpresa. Não é que naquele dia o nosso colega me fez refletir sobre diversas coisas que se passavam em meu coração? Sem viadagem, você vai entender, calma! Dentre os casos narrados pelo trabalhador xarope estavam problemas com guarda de menores, irmãos que entraram no tapa, separações por conta de crise financeiras (só um adendo - o caboco que deixa o cartão de crédito com a patroa é que deveria ir preso), mulher cobrando pensão atrasada e até desquite por conta do maridão que chegou bêbado, vomitou na tapeçaria da sala e estragou toda a peça.
Ainda bem que alguém me puxou pelo braço e me desviou da rota da faculdade de Direito, ser advogado é “osso”, mas ser um torcedor apaixonado pelo Paraná Clube também exige um grau de sofrimento e entrega de parte da vida. Tem que haver doação sim, e muitas vezes abrir mão de luxos para fazer a família feliz. A relação é simples e todos os envolvidos têm de ceder. Buscar culpados, tanto na justiça quanto no dia a dia não resolve, a solução para as intempéries familiares está na tomada de atitudes do patriarca que pára, reúne, ouve e traça o caminho certo.
O tapete da nossa casa, o gramado da Vila do Povo, está deteriorado, e agora? Culpá-lo pelos maus resultados ou agir? Vamos trocar o piso de vez! E o que falar dos pratas da casa que andaram se rebelando? Relho! Educação rígida, criação à base de rédeas curtas. Com adolescentes tem que ser assim, se não eles montam em cima. Durival de Britto e Silva vazio, mas o réu é o torcedor? A fervura das arquibancadas depende de uma combustão potente em campo, do contrário serão sempre os mesmos três mil, que logo vão virar dois! Olho para o bolso e vejo crise financeira, o que faço? Julgo o último que usou a minha calça, o Miranda ou o Aurival? Não! Conclame tua nação, explore seu potencial de marketing, empreenda e re-surja!
Não sou mais nem menos paranista que qualquer tricolor que está me lendo agora, mas dói ter de ver a nossa Vila Capanema querida sentada no banco dos réus. Nosso lar carrega a cruz das más atuações e do rebaixamento. Embora tente ver o legado de glórias deixado pelo nosso simpático estádio do relógio da torre, corta meu coração não poder fazer nada perante as estatísticas. Pronto! Estava feita a cagada, eu, no bar, ouvindo balela, pensando angústias e bebendo igual um cavalo. Parti da mesa para meu apartamento, bêbado, sujo, triste e despreparado para encarar a muié. Mais um round da convivência familiar começava e o ciclo permanecia. Porém, é com jeitinho que tudo volta ao normal. Minha casa não caiu, assim como o templo das gralhas, que vai manter seu alicerce firme até o fim da tempestade, à espera dos raios de sol que vão secar as lágrimas sangrentas de nosso manto.











