Entrevista
do mês

O Tricolor tem muita história!
Em tempos de crise, muitos jogadores e treinadores passam pela Vila
Capanema sem saber da tradição da camisa que
têm a honra de vestir. Por isto, o Paranistas.com.br
decidiu fazer a entrevista do mês com quem pode garantir que o Tricolor tem muita história: João Maria
Barboza. O responsável pela Sala de Preservação e Memória na
sede da Kennedy há 22 anos falou sobre sua época de atacante
do Ferroviário, a Copa de 1950 na Vila, os melhores atletas e
dirigentes que já defenderam o manto tricolor e principalmente
sobre todas as glórias que hoje formam o Paraná Clube.
Escute
aqui a primeira parte da entrevista com Barboza.
Escute
aqui a segunda parte da entrevista com Barboza.
Escute
aqui a terceira parte da entrevista com Barboza.
Escute
aqui a quarta parte da entrevista com Barboza.
O entrevistado do mês é desconhecido por muitos tricolores, mas
conhece o Paraná como poucos. João Maria Barboza, 85 anos,
nascido em 14 de dezembro de 1923 na cidade da Lapa, é funcionário
do Tricolor há 22 anos e é o responsável pela Sala de
Preservação e Memória do clube, que fica na sede social da
Kennedy.
Antes de ocupar esse cargo, Barbozinha, como é carinhosamente
chamado, foi jogador de dois clubes que deram origem ao
Tricolor. Defendeu a camisa do Ferroviário de 1944 a 1948,
quando se transferiu para o Água Verde. Ficou no clube até
1956, quando encerrou a carreira. Chegou a trabalhar como
treinador, mas não deu um seguimento a essa profissão.
Aposentado pela Rede Ferroviária há 40 anos, pode-se dizer que
Barbozinha ganhou esse emprego por acaso. "Em 1987, quando
ia ter a inauguração da Sala de Memória, a dona Remira levou
lá em casa o convite. Ela teve a oportunidade de entrar o meu
escritório e percebeu lá fotografias de futebol, camisas,
bandeiras e achou interessante essa organização. Como ela ia
precisar de um funcionário para trabalhar aqui me
convidou", revela.
Barboza
apontando ele mesmo em foto do time do Ferroviário.
Centroavante
A história de João Maria Barboza com o Paraná começou em 1944,
quando o Ferroviário contratou o centroavante do União da
Lapa. A vitoriosa trajetória do atleta no novo clube teve início
logo no primeiro ano, com a conquista do Estadual, encerrando
uma longa hegemonia da dupla Atletiba.
Barbozinha defendeu o Ferroviário de 44 a 48, quando recebeu a
proposta do presidente do Água Verde na época, Orestes Thá,
para se transferir de clube. O negócio só foi possível devido
a boa relação entre as duas diretorias. "Funcionário da
Rede não podia jogar em outro time. Mas o senhor Orestes e o
doutor Lineu Ferreira do Amaral, presidente do Ferroviário,
eram muitos amigos. Conversaram e o seu Orestes disse para ele
me liberar, já que estava sem jogar e no Água Verde seria
muito bom para mim", recorda.
No novo clube, Barboza ficou até 1956, quando encerrou a carreira
de jogador. Desse tempo de atleta, ele guarda muitas lembranças
boas e destaca a qualidade do elenco do Ferroviário na época,
que foi o ponto principal pela sua transferência em 48.
"Tive uma boa passagem no Ferroviário, mas precisei ir
para o Água Verde pois naquela época o Ferroviário era o
'Butantã', era cobra demais lá. Os velhos não davam chance
aos mais novos, treinavam machucados, doentes, para não
perderem a posição", justifica.
|
"Naquela época o
Ferroviário era o
‘Butantã’, era cobra demais lá.
Os velhos não davam chance aos
mais novos, treinavam machucados,
doentes, para não perderem a posição".
|
Copa do Mundo de 1950
Ainda como jogador, Barboza viu de perto a Copa do Mundo de 1950,
realizada no Brasil com duas partidas na Vila Capanema (Espanha
3 a 1 nos Estados Unidos e o empate por 2 a 2 entre Paraguai e
Suécia). "Acompanhei os dois jogos. Foi uma experiência
diferente, eram jogos internacionais, de Copa do Mundo. Não
houve recorde de público, mas sim de renda porque os ingressos
eram caros. Deu muita gente, mas não chegou a lotar o estádio",
relembra Barbozinha.
Questionado se a Vila Capanema de fato era o local mais apropriado
na época para receber este evento, o entrevistado afirmou sem dúvida
alguma. "De fato era o melhor estádio da cidade. Tinha o
estádio do Atlético, que comparado ao Durival de Britto era
uma cozinha! E o do Coritiba nem se fala".
|
"De fato era o melhor
estádio da cidade.
Tinha o estádio do Atlético, que
comparado ao Durival de Britto era uma
cozinha! E o do Coritiba nem se fala".
|

Fim do Ferroviário
João Barboza viveu também a época de duas fusões que originaram
o Tricolor. Primeiramente, o Ferroviário juntou forças com o
Palestra e o Britânia e deram origem ao Colorado. Apontado por
muitos como o primeiro erro da história paranista, o atual
responsável pela Sala de Memória do Paraná relata detalhes
dessa união.
"É que o Palestra e o Britânia estavam indo para a Segunda
Divisão, iriam desaparecer. Então resolveram juntar o patrimônio
dos três para manter essa tradição. Se não hoje ninguém
mais falaria de Palestra, de Britânia, mas está aqui. A história
está aqui", afirma. Quanto ao nome do time, o entrevistado
do Paranistas.com.br revela que não foi possível manter
o de Clube Atlético Ferroviário devido a detalhes que os
dirigentes exigiram para os acertos.
Fusão final
Já com relação à fusão que originou o Paraná Clube, em 1989,
entre Colorado e Pinheiros, Barboza relembra que anos antes ela
quase nem ocorreu. “Muita gente não sabe, mas houve ocasiões
de ser feita fusão entre Pinheiros e Atlético e entre
Pinheiros e Coritiba".
Na opinião do funcionário do Tricolor, o descontentamento dos
torcedores do Ferroviário foi menor na fusão que deu origem ao
Colorado do que na união deste com o Pinheiros. "Com essa
fusão muitos ferroviários abandonaram o clube, pois vários
associados ficaram revoltados", declara, emendando logo em
seguida uma ressalva. "Mas na hora da votação da fusão,
não teve ninguém para contestar. Foi uma lavada, cento e
poucos votos contra quase nada", complementa João Barboza.
Já em relação à pessoa que ele mais destaca em todo esse tempo
de clube, o entrevistado não deixa transparecer muitas dúvidas
na hora da indicação. "Foi um dos baluartes do Água
Verde, o doutor Orestes Thá, que hoje está morto. Ele quem
manteve o Água Verde em pé. Posso afirmar isso com todas as
letras. Vim pra cá em 48, quando ele ia assumir o clube",
relata. "Ele só não pegou o carrinho pra colocar a terra
no estádio porque ficava meio sem graça. Não sossegou
enquanto não conseguiu o estádio Orestes Thá, que foi
inaugurado em 58 e desativado em 84, onde está a sede do Paraná
Clube hoje" ensina.
|
"Com essa fusão muitos ferroviários
abandonaram o clube, pois vários
associados ficaram
revoltados. Mas
na hora da votação da fusão, não teve
ninguém para contestar. Foi uma lavada,
cento e poucos votos contra quase nada"
|

Sala de Memória
Sobre a Sala de Preservação e Memória, local em que trabalha há
22 anos, João Barboza recomenda a visita de todos os
paranistas. Primeiramente, o funcionário destaca a sala de
troféus, que fica ao lado. "É uma sala exclusiva do Paraná
Clube, em que temos aproximadamente 300 troféus. Porque os do
Britânia, Palestra e Ferroviário estão no Durival Britto e os
de Pinheiros e Água Verde estão em um depósito aqui embaixo
do ginásio por falta de espaço", disse.

Na sequência, ele emenda contando um pouco sobre o que possui na
sua área de trabalho. "Há muitas coisas raras, por
exemplo: ninguém sabe que temos aqui o troféu da Independência,
que foi conquistado pelo Britânia em 1922. O Ferroviário foi
campeão em 1950 e no Centenário em 1953. São coisas assim que
marcaram. Temos bandeiras do tempo de Savóia, coisas antigas
que se estender arriscam rasgar. São jóias raras que temos
guardadas aqui, fotografias, flâmulas, trofeus, uma infinidade
de objetos".
Outro artigo pertencente a Sala de Memória que João Barboza faz
uma menção especial é um livro de visitas. Segundo o
entrevistado, há assinaturas de pessoas do mundo todo que foram
conhecer um pouco sobre a história paranista. "Se for
folhear vai encontrar gente de países da Europa, dos Estados
Unidos, do Japão... é uma verdadeira relíquia esse
livro", garante.
Assim como em qualquer outro setor do clube, o ibope da Sala de Memória
depende, e muito, dos resultados dentro do campo. De acordo com
Barboza, quando o time está bem, há visitantes quase todos os
dias. Já quando está mal, ele fica a maior parte dos dias
sozinho. "Na época da Libertadores tínhamos visitas diárias.
Escolas marcavam, traziam dez, 20, 30 alunos. Quando o time está
em cima temos visitas, quando está embaixo ficamos aqui olhando
as paredes".

Questionado se a torcida paranista em geral valoriza a história
do clube, João Barboza acredita que sim e se apega a fatos do
passado para afirmar que os tricolores tem muito o que contarem
e comemorarem, ao contrário do que dizem os rivais. "É
claro que temos história! O Ferroviário, que era da classe
ferroviária, tinha o seu estádio, foi o primeiro clube a
entrar no núcleo do Rio-São Paulo. O Água Verde é de 1914,
time que não é de ontem, vem de longe, é de tradição! E o
Paraná Clube está aí, já esteve até na Libertadores da América,
não precisa dizer mais nada".
Para aqueles que quiserem conhecer a Sala de Preservação e Memória
do Tricolor, ela fica na sede da Kennedy, ao lado da sala de
troféus e funciona de segunda a sexta das 14h às 18 horas.
|
"É claro que temos história! O Ferroviário,
que era da classe ferroviária, tinha o seu
estádio, foi o primeiro clube a entrar no
núcleo do Rio-São Paulo. O Água Verde é
de 1914, time que não é de ontem, vem de
longe, é de tradição! E o Paraná Clube
está aí, já esteve até na Libertadores
da América, não precisa dizer mais nada"
|
Rapidinhas do Paraná Clube
Melhor jogador: "O único craque mesmo que eu vi
jogar foi o Pelé, mas no Paraná eu destaco o Saulo. O cara
marcava gol. Era um craque na função dele, de centroavante -
eu não gosto de falar matador! É uma palavra que não me entra
na cabeça. Não sei como repórter pode escrever isto com tanta
coisa boa. Para mim matador é quem mata boi, mata porco.
Matador do que? Artilheiro, jogador que decide! - então era o
Saulo lá na frente e o Régis lá atrás".
Hélcio: “O Hélcio veio pro Paraná Clube por influência da sogra, acho
que até hoje ele não sabe disso. Um dia eu estava passando na
frente da casa dela, que é minha vizinha, ela disse o seguinte:
seu Barboza, o meu genro está chateado porque no Coritiba o mês
virou de 90 dias. Será que não dá para ele ir para o Paraná?
Eu falei com o (Ocimar) Bolicenho, que era diretor e é muito
amigo e atencioso, e disse pra deixar com ele isso aí. No ano
seguinte ele foi eleito o presidente e, para a surpresa de muita
gente, o Hélcio foi contratado. Eu não tenho um dedo na vinda
do Hélcio para o Paraná, tenho uma mão inteira”.
Melhor presidente: "Darci Piana. Teve os
seus dois anos de presidente e foi um presidente e tanto. Essa
sala de trofeus foi uma iniciativa dele. Fez um trabalho magnífico.
Não quer dizer que os outros não fizeram nada, mas o Darci
deixou a marca dele".

Taça
da Série B de 1992, conquistada na gestão de Piana.
Sobe esse ano? "Perder alguns jogos é normal, mas
precisamos reagir logo. Se demorar para começar a ganhar
complica. Não estamos nos sentindo bem na Segunda Divisão. E o
problema não está fácil de resolver, porque tem outros times
grandes, como Guarani, Ponte Preta, que estão brigando para
subir. E nós aqui estamos nessa coisa, não acerta, troca de técnico.
E não adianta mudar de técnico. A hora que resolverem montar
um time pra acertar as peças, qualquer pessoa toca".
Já que tocou no assunto técnico, diante da atual situação do
Zetti, Barboza voltou no tempo para lembrar de Vicente Feola.
“O técnico é uma pessoa pra reunir o pessoal. Tem uma
história engraçada que é a seguinte: quando o Feola treinava
o São Paulo, diziam que ele dormia no banco. Aí ele respondia:
claro, se a máquina está acertada, por que vou ficar aqui?
Deixa tirar minha soneca que eles estão resolvendo”.
|
"...seu Barboza, o meu genro está
chateado porque no Coritiba o mês virou
de 90 dias. Será que não dá para ele ir
para o Paraná? Eu falei com o (Ocimar)
Bolicenho... No ano seguinte ele foi eleito
o presidente e, para a surpresa de muita
gente, o Hélcio foi contratado. Eu não
tenho um dedo na vinda do Hélcio
para o Paraná, tenho uma mão inteira".
|

Recado à torcida
Como já faz parte do ritual, o Paranistas.com.br pediu para
o entrevistado do mês mandar um recado à toda nação
tricolor. "Torcida do Paraná Clube, não percam as esperanças.
Por exemplo, o Internacional está começando a perder, o São
Paulo também, o Palmeiras, Santos e Cruzeiro tiveram suas decadências
e estão voltando. O Paraná Clube está na hora de subir, não
podemos perder as esperanças", conclama este sábio senhor
de 85 anos.
Ps: agradecimentos especiais a Renata Bernadi pela contribuição
valiosa nesta entrevista.
por DANIEL PIVA
01/07/09