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ENTREVISTA

 

Aramis Tissot, o primeiro presidente 

Após a fusão em 1989, ele foi o responsável por comandar um clube recém criado, conseguindo um título estadual logo no segundo ano de vida da agremiação. Aramis Tissot, 62 anos, é o entrevistado do mês do Paranistas.com.br. O ex-presidente fala um pouco sobre aquela época áurea e muito sobre o que ocorre hoje, acreditando que os dois próximos jogos demonstrarão se o Paraná retorna ou não para a Primeira Divisão.

O começo

Nascido em 14 de dezembro de 1946, Aramis Tissot lembra que torcia pelo Pinheiros desde sempre. “Meus pai e meus tios eram pinheirenses”, justifica. Mas o envolvimento com o clube começou na participação do conselho fiscal, ainda sob o mandato de Jorge Celestino Bueno. Já no futebol foi aparecer em 1982, quando Erton Coelho de Queiroz era presidente.

“Fiquei um bom tempo trabalhando no futebol, depois saí e acabei voltando como presidente já do Paraná Clube, em 1990 e 1991. No começo, tínhamos muitos jogadores e precisávamos fazer um time. O (Rubens) Minelli (treinador) e o Carlinhos Neves (preparador físico) ajudaram muito nisto. No primeiro ano não conseguimos nenhum título e eu fui muito cobrado também”, relembra

Mas, diante dos problemas iniciais, Tissot lembra que o clube se reforçou. “O primeiro jogador a ser contratado pelo clube foi o Adoílson. Depois veio o Oscar Yamato para ser o supervisor de futebol. Fez um bom trabalho e ficou seis, sete anos no clube. Na sequencia contratamos o Saulo. Eu mesmo estive em Belo Horizonte para acertar com aquele desconhecido que se tornou o maior artilheiro da história do clube", conta.  

“Eu mesmo estive em Belo Horizonte para
acertar com aquele desconhecido que se
tornou o maior artilheiro da história do clube"

 


Time que conquistou o primeiro título da história paranista. Aramis de pé, a direita.

A emoção do primeiro título

Questionado como foi a conquista do Paranaense de 91 o primeiro título do clube, Aramis Tissot recorda com orgulho do seu ex-lateral esquerdo. “Ganhamos com o gol do Ednelson! Foi uma emoção indescritível. Aquele gol veio nos mostrar que o caminho estava certo. Todos ficamos satisfeitos”.

A sequencia

De acordo com Tissot, apesar da sua saída e a chegada de Darci Piana na presidência, ele continuou trabalhando no futebol, o que ainda ocorreu com os futuros presidentes Ocimar (Bolicenho) e Ernani (Buchmann). “Participei da montagem dos melhores times do Paraná”, comemora.

Já com relação a Série B conquistada com apenas três anos do clube, Tissot garante que tem parte do mérito na conquista. “A equipe que nós deixamos em janeiro de 92 para o Darci (Piana) foi a mesma que foi campeã da Segunda Divisão. O time era tão bom que ele fez apenas uma contratação: o goleiro Luis Henrique”, afirma.   

“Participei da montagem 
dos melhores times do Paraná”


Almoço com dirigentes da Federação Paranaense na Kennedy, em 27/06/91.

Motivos da queda

Quase 20 anos após a fusão com o Colorado, Tissot foi questionado pelo Paranistas.com.br se o que o Tricolor é hoje foi o planejado na época. Logicamente, a resposta do ex-presidente foi negativa. “O nosso pensamento era maior. Queríamos fazer deste o maior clube do Paraná”, lamenta. “Infelizmente, por problemas no clube, de diretoria, não conseguimos alcançar este objetivo. Pelo menos o Paraná conseguiu revolucionar o futebol paranaense. Fez o Coritiba e o Atlético se mexerem”.

Segundo Tissot, os problemas paranistas começaram com a crise financeira ocorrida entre 1997 e 1998. “Esta crise fez com que todos os clubes sociais perdessem sócios. É natural porque, quando aperta, a pessoa acaba tirando o que é mais supérfluo. O Paraná encolheu bastante. No início, tínhamos 16, 18 mil sócios olímpicos pagantes. Hoje tenho certeza que não deve ter mais de 4 mil”, relata.   

“O nosso pensamento era maior. Queríamos fazer deste o maior clube do Paraná”

Quanto a queda no nível das equipes ao longo dos anos, o ex-presidente tem a sua opinião. “O Paraná abandonou aquela nossa filosofia de fazer times competitivos. Hoje, a maioria dos jogadores são de empresários e sobra muito pouco para o clube. Além disso, agora os contratos são diferentes. A lei Pelé influenciou para o encolhimento dos clubes, não só do Paraná”, argumenta.

De acordo com o entrevistado deste mês, o nível dos atuais “cartolas” brasileiros também é um problema. “Hoje o Paraná vende para o Vasco e tem problemas para receber. O Flamengo é um dos clubes que mais deve no país. Não estou nem falando do Paraná, mas há muitos dirigentes que querem ganhar um por fora”.  


Com o ex-presidente da FPF, Onaireves Moura, em almoço na sede paranista em 27/06/91.

Aurival Correia

Questionado se realmente acreditava que esta última afirmação não tinha nada a ver com os problemas paranistas, Tissot foi taxativo. “Acredito que isto (ganhar por fora) não tenha no Paraná. O Aurival tem procurado fazer um bom trabalho na parte financeira, a recuperação feita por ele é brilhante. O clube vai se beneficiar muito disso no futuro”, garante.

Por outro lado, na administração do time, o ex-presidente não elogia da mesma forma o atual mandatário maior do Tricolor.  “Não posso dizer o mesmo do futebol. As contratações são muito ruins. Nos últimos três anos, não tem dado certo e se gasta demais com isto. São 40 jogadores ou mais por ano. Fica o residual das multas por rescisões ou dispensas mais as novas contratações”, critica.

Segundo Tissot, a solução estaria na tão sonhada profissionalização do departamento de futebol. “Não tem uma pessoa que conheça o futebol no Paraná. Tem que trazer um profissional pago, não adianta continuar com o amadorismo. É melhor contratar uma pessoa para gerir o futebol porque, assim, as contratações serão mais certas e no final, mesmo com mais este salário, vai se gastar menos”, explica.

“Não tem uma pessoa que conheça
o futebol no Paraná. Tem que
trazer um profissional pago, não
adianta continuar com o amadorismo”

 


Quadro presente na galeria dos ex-presidentes na sede do Tricolor.

Possível volta

Questionado se poderia retornar a diretoria do clube neste tempos difíceis, Tissot disse que no momento é difícil, mas pode acontecer.  “O Paraná tem que rever os conceitos de futebol. Eu não me recuso em ajudar, mas tenho 62 anos. Não tenho mais a mesma saúde, apesar de não me considerar velho. Mas o sangue novo neste caso é importante, dá mais vontade de trabalhar. Não é possível voltar todos nós da antiga. Acho difícil que isso ocorra”, diz.

Mesmo assim, após insistências, Tissot deixou uma brecha para uma possível volta no futuro. “Não posso dizer que desta água não beberei. A vida muda repentinamente. Mas no momento não tenho nem condições porque estou fazendo um trabalho de construção que me consome muito tempo”, explica.  


Aramis Tissot assinando a fusão entre Colorado e Pinheiros, em 1989.

O Conselho Normativo

Como o presidente do Conselho Normativo, Ocimar Bolicenho, está licenciado para trabalhar no Santos (foi demitido no dia seguinte a esta entrevista), Aramis Tissot é o atual comandante do conselho. Por isto, o Paranistas.com.br conversou um pouco sobre esta parte do clube, formada apenas pelos ex-presidentes e pouco falada normalmente.

Tissot já começou criticando. “Antigamente o conselho tinha um poder que foi tirado com a reforma estatutária do (José Carlos de) Miranda. Com isto, o clube passou a ser administrado, além da diretoria, pelo Conselho Deliberativo. Foi feito de uma forma errada. Podia ser de uma maneira que dividisse os poderes entre os dois conselhos”, argumenta.

O entrevistado citou como exemplo o próprio caso que vazou para a imprensa e gerou a saída do então presidente Miranda. “Com a atuação do Normativo, este vazamento não teria ocorrido. É muito mais fácil ver os problemas e trancá-los, por ter menos pessoas. No Deliberativo tem 400, fica mais difícil”.  

Segundo Aramis Tissot, seria necessária mais uma reforma no estatuto para solucionar os problemas criados na última reforma. “O Deliberativo tem que existir. Os próprios conselheiros poderiam eleger o presidente, já que eles foram eleitos pelos sócios”, opina.

Esta reforma já teria sido proposta pelo presidente do Conselho Deliberativo, Benedito Barbosa, mas ainda não caminhou. “Está meio parado. O doutor Benedito me ligou e quer fazer uma reunião. Eu avisei que é só marcar que eu irei”, garante. “O clube não pode ter dono. Tem pessoas que fazem mudanças para se sentirem mais donas do clube. Tem até gente que leva vários conselheiros para dizer que manda no conselho”, critica.

Tissot relembra que o próprio Deliberativo tem que cumprir as normas do clube, o que já traria profunda mudanças. “O conselho tem que cumprir o estatuto. Lá diz que se o conselheiro falta cinco reuniões, ele tem que ser alterado. Uma grande parte destes que estão hoje já deviam terem sido expulsos se o estatuto fosse cumprido”. 

“O clube não pode ter dono. Tem
pessoas que fazem mudanças para
se sentirem mais donas do clube.Tem
até gente que leva vários conselheiros
para dizer que manda no conselho”

 


O entrevistado do mês (primeiro da esquerda para a direita) na cerimônia da fusão na FPF.

Parcerias

Apesar de reconhecer, pelo cargo que ocupa no conselho, que não pode atacar as pessoas publicamente, Aramis Tissot deu a sua opinião sobre as parcerias no futebol. Este foi um dos assuntos solicitados na comunidade do Paranistas.com.br no Orkut. 

“Eu não sou contra fazer parcerias, o futebol de hoje exige isso. Também não sou contra que o Paraná coloque jogadores de empresários na vitrine. Mas, eu sou contra sim, que o clube traga um atleta desconhecido, assine um contrato de quatro anos, por exemplo, não dê certo no primeiro ano e o Paraná fique pagando até o fim do contrato, enquanto o empresário não faz nada. Não deu certo, põe em outro clube, quem paga e tem que se virar é o empresário”, argumenta.  


Muitos dirigentes e políticos compareceram na oficialização da fusão na FPF em 1989.

A BASE

O ex-presidente confirmou que o contrato que passou as categorias de base paranistas para a BASE demorou três meses para ser aprovado no Conselho Normativo. Mas justificou. “O contrato era muito ruim. Não era viável para o clube, que acabava sendo prejudicado. Ocorreu uma mudança, mas o que foi assinado eu não vi, pois até hoje não foi encaminhado para o conselho”, afirma.

Falando sobre a parceria com a BASE, Tissot lembra que o Paraná tem que ter cuidado já que, por incrível que pareça, agora está gastando mais com os meninos do que antes. “Nós gastamos no ano passado R$ 120 mil por mês com as categorias de base. Foi feita a parceria e hoje o clube gasta quase o dobro disso. Tudo porque o Paraná é obrigado a pagar 50% das despesas. Se com a nova infraestrutura, paga totalmente pela BASE, o custo mensal subiu para R$ 400 mil, o clube paga R$ 200 mil”, explica.

Mesmo assim, o ex-dirigente acredita que, com a venda de jogadores, o negócio será rentável para os dois lados. “Deve dar certo no futuro o trabalho que foi proposto pela BASE. Eles também querem ter um retorno do investimento”.  

“Nós gastamos no ano passado
R$ 120 mil por mês com as categorias
de base. Foi feita a parceria e hoje
o clube gasta quase o dobro disso”


Aramis (quinto no sentido horário) escuta enquanto Darci Piana fala sobre a criação do Paraná.

Futebol x Social e Estádio

Como sempre, quando foi divulgado na comunidade do Paranistas.com.br no Orkut que o entrevistado seria um ex-presidente, a velha questão do futebol x social já apareceu. Tissot não foge do tema. “É necessário separar o futebol do social. O caminho era este, já devia ter sido feito. Cada um deveria ter vida própria”.

Outra questão sugerida por um leitor era se é possível se desfazer de uma das sedes do clube para construir um bom estádio. O entrevistado responde. “Vender uma sede para fazer estádio é impossível. A única que daria para vender e colocar dinheiro no futebol é a do Tarumã. Na Kennedy o social é forte e na Vila Olímpica deve ser construído um CT para os profissionais. Basta arrumar o campo. O futuro está ali”, defende.

“É necessário separar o futebol do social.
O caminho era este, já devia ter sido
feito. Cada um deveria ter vida própria”

 

Mas, ainda sobre a questão do estádio, Tissot é que faz a pergunta. “Vocês querem fazer um estádio novo para 4 mil pessoas? Tudo bem que agora o público é esse porque não temos um time bom nem infraestrutura, mas historicamente, quando tivemos grandes times, o público também não era grande. A torcida do Paraná é grande, mas a que vai no estádio é pouca”, lamenta.

Questionado se o número de torcedores nas arquibancadas não era resultado dos últimos times medíocres, o entrevistado concordou, mas fez ressalvas. “A empolgação vai do time, é evidente. Mas nós estivemos na Libertadores e tinha jogo com 7, 8 mil pessoas. Não quero ser pessimista, mas é difícil”, explica.

“Vocês querem fazer um estádio novo para
4 mil pessoas?... A torcida do Paraná é
grande, mas a que vai no estádio é pouca”


Sobe este ano?

Voltando a falar do futebol profissional e diante da pergunta fatídica, Aramis Tissot não se mostrou muito confiante. “Não acredito não, mas nós temos que ter uma resposta imediata. Pode subir, mas tem que fazer quatro pontos nos dois próximos jogos (Vasco, em casa, e Juventude, fora). Se não já fica muito difícil, a distância em relação aos outros clubes fica muito grande”, aposta.

Com relação ao seu descrédito, o ex-presidente cita a qualidade dos adversários e o último jogo do Tricolor. “Nesta Série B há várias equipes boas que vão dar trabalho. A dificuldade é muito grande. Quem viu o jogo contra o América não tem como pensar que o nosso time é bom. Contra a Ponte Preta, foi melhor porque enfrentou uma equipe desfalcada. A maioria da torcida já começou a ficar desesperançosa. Só espero que não lute para não cair”, afirma o entrevistado do mês, deixando no final o torcedor falar. “Mas quem sabe. Se conseguir os quatro pontos nestes dois jogos ainda pode conseguir lutar na parte de cima da tabela”.  

“Pode subir, mas tem que fazer quatro pontos
nos dois próximos jogos
(Vasco, em casa, e
Juventude, fora)
. Se não já fica muito difícil”

 
Convite para a assinatura da  “Ata de Fusão”,  na Federação Paranaense de Futebol, em 20/12/89.

Recado para a torcida

Como sempre, para encerrar, o Paranistas.com.br pediu para o entrevistado do mês mandar um recado para a torcida. O presidente do primeiro título da história do clube não perdeu a chance. “Temos que continuar acreditando como torcedores paranistas. Estes próximos dois jogos vão decidir o nosso futuro na Segunda Divisão. Tem que dar um voto de confiança à diretoria atual, que fez um trabalho bom no lado financeiro. No futebol não posso dizer o mesmo, pois as contratações não tem sido corretas e é necessário profissionalizar”.

Imagens: arquivo Paraná Clube. Agradecimentos ao simpático Sr. João Maria Barbosa, responsável pelo setor de Preservação e Memória do Paraná Clube.

Observação: É até com vergonha que admitimos que ainda estamos na entrevista especial de abril. Problemas do trabalho voluntariado.Pedimos sinceras desculpas aos nossos leitores pelo atraso. Já estamos providenciando a de maio.

Imagens: arquivo Paraná Clube. Agradecimentos ao simpático Sr. João Maria Barbosa, responsável pelo setor de Preservação e Memória do Paraná Clube.

  por   ROBSON MARTINS 
27/05/09

 



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